por Pedro Zeneti Junior


Dois anos seguidos (2007 e 2008) recebi o convite de ir escalar no Frey e esse ano não foi diferente, novamente o Maykel me fez esse convite. Ainda mais quando falou que estava sem parceiro de escalada, topei na hora.
No finalzinho de janeiro peguei um ônibus da cidade de Mogi Mirim com toda a minha tralha até São Paulo, depois outro para Curitiba. Chegando lá Maykel me pegou na rodoviária que fica duas quadras da sua casa. Estávamos animados com a viagem, chegando na sua casa começamos a preparar toda a logística dos equipamentos, comida e tudo mais.

Com tudo arrumado: equipamento, comida e documentação, saímos no dia seguinte de manhã. Chegando na fronteira fomos regularizar nossa entrada na Argentina e depois trocar Real para Peso. Feito tudo isso seguimos viagem. Nesse primeiro dia dirigimos 900 km e paramos para dormir em um posto de gasolina.

Acordamos cedo e continuamos viagem parando para o café só mais adiante. Esse dia dirigimos 1.600 km e só fomos parar depois das 01h30 da matina até chegar em um parque nacional no meio do deserto, chamado LIHUE CALEL. Um parque com uma boa infra-estrutura para acampar e com banho quente, totalmente gratuito. Além de tudo com uma vida animal abundante e um museu interessante de se visitar.

Continuamos nossa viagem pelo deserto, foram mais 900 km até Bariloche. Passamos ao lado do Vale Encantado, que estava em nossos planos de conhecer assim que voltassemos do Frey infelizmente teve que ficar para a próxima viagem.

Chegando a Bariloche fomos providenciar o restante da comida e também falar com a pessoa responsável pelos cavalos que ia fazer o porteio de nossas mochilas até o Frey.

Tudo resolvido decidimos ficar em um camping próximo do inicio da trilha para o Frey. No caminho para o camping encontramos com dois amigos do Maykel: a Bibi, o Catatau mais conhecido por Cata e seu filho Raul de 7 anos todos de Curitiba, se tivesse combinado não teria dado certo esse encontro.

Bem cedo começamos arrumar nossas mochilas cargueiras, deu um pouco de trabalho até acertar tudo. Fomos para o inicio da trilha para esperar o dito cujo com os cavalos, marcamos com ele às 10:00 da manhã e nada dele aparecer. Depois de muita espera fomos atrás para saber o porque da demora e para nossa surpresa ele ainda estava dormindo, se recuperando do porre da noite passada. Uma moça (acho que era sua filha) nos disse que logo ele iria e voltamos novamente para o local de espera. Nada do cidadão aparecer e depois de muita espera voltamos novamente na sua casa.

Dessa vez ele estava ajeitando os cavalos para a subida. Voltamos novamente até o local combinado e depois de um pequeno atraso de 4 horas ele chegou todo alegre e nós entediados de esperar por ele. Se tivéssemos combinado que na sua chegada ao ponto de encontro haveria bebida ele teria chegado no horário marcado, mas isso é só uma brincadeira.

Chegando ao Frey depois de 10 km de caminhada fomos procurar um bom local para montar as barracas. Depois de ajeitarmos tudo fomos preparar o jantar e descansar para o dia seguinte.
Para começar o dia um bom café da manhã, uma boa estudada no guia e decidimos começar nossas atividades na agulha Frey na via Diedro de Jim (50m, 5), Sudor Frio (15m, 6a+) e Descuidando La Faz Comercial (30m, 6a). No dia seguinte decidimos ir para agulha M2 na face norte. Para começar entramos na via Llegando Al Cielo Sin Morir (45m, 6a), mas o tempo virou e começou a chover, abandonamos a via e as atividades ficaram para o próximo dia.

Nossa próxima investida foi na agulha El Piramidal e a via escolhida foi Mastropeiro nunca mas (100m, 6a). Chegando na base da via estavam lá Andrea e Simone, duas brasileiras que havíamos conhecido dias atrás. Elas já estavam lá há algum tempo e estavam escalando muito bem, formando uma dupla feminina muito entrosada. Elas entraram na via Gemidos de Buitre (100m, 6b). Como o início das duas vias é o mesmo, esperamos as meninas fazerem a primeira enfiada e logo entramos na via, mas em um trecho da via resolvi descer e deixar somente o Maykel e o Cata continuarem a escalada.

Eu estava na base da pedra fotografando a escalada de ambas as duplas, que por sinal são duas linhas lindas, quando vi a Andrea na ultima enfiada colocando um móvel em uma fenda com uma laca totalmente solta. Nesse momento não sei o que aconteceu, mas estava assistindo a escalada quando vi a laca se soltando e puxando a Andrea junto com ela. Foi bem assustador pois a laca tinha o tamanho de uma geladeira. A laca quicou na parede e se partiu em duas. Vendo isso gritei para a Simone "pedra" e ela logo se encolheu na parada só esperando as pedras passarem a poucos metros dela. A Andrea caiu sobre um platô de uns 30º a 35º de inclinação. Ela foi escorregando de costas nesse platô, ficando alguns segundos desacordada e voltando logo a si, reclamando que estava sentindo tontura. Mas logo ela melhorou e estava bem consciente do que tinha acontecido, quando ela disse "acho que quebrei o pé".

Enquanto as duas iam descendo e abandonando todo o material na parede, eu desci para chamar ajuda. Fui até a barraca do Cata e lá encontrei a Bibi. Falei o que tinha acontecido e pedi para ela ir até o refugio pedir ajuda e para levarem a maca, enquanto fui até a barraca das meninas para pegar um kit de primeiro socorros que elas me pediram.
De volta à base da Piramidal, a galera do socorro com a maca já estavam chegando. Feito todo o procedimento padrão para o resgate, começamos a descida até o refugio. Foram preciso 12 pessoas para ir revezando na maca (isso porque a garota só tinha 50 quilos) e mais dois na frente para indicar o melhor caminha para a descida.

Chegando ao refugio por sorte tinha um medico que já estava esperando por ela para examiná-la. Feito tudo isso, os responsáveis pelo refugio anotaram todos os dados dela e acionaram o resgate para o dia seguinte as 8:00 da manhã e disseram que o resgate seria com helicóptero. Às 8:00 em ponto ouvimos o som do helicóptero se aproximando do vale e logo ela foi levada para o hospital em Bariloche. Depois de dois dias ficamos sabendo que ela tinha quebrado o pé em dois lugares e uma perfuração no osso de um centímetro de profundidade.

Passado o susto e depois de um descanso forçado por causa da chuva (nevando um pouco a noite), decidimos ir escalar a agulha La Lechuza. A via escolhida dessa vez foi Misticismo Ateo (100m, 6a). Uma bela linha totalmente em móvel. O que atrapalhou um pouco foi o vento que estava muito forte. Até os responsáveis pelo refugio disseram que nunca virão ventos assim nessa época do ano.

Por 15 dias esse vento soprou dia e noite, sendo possível ouvir as rajadas de vento quando estavam se aproximando. Isso dava tempo de agarrar melhor a parede para não perder o equilíbrio.

Bivacamos dois ou três dias no vale do Campanile, onde o vento não aterrorizava nossas cabeças. Foi muito bom, pois lá encontramos alguns amigos que já estavam acampados, escalamos mais um pouco em outras agulhas e retornamos para nossas barracas, para começar a juntar tudo para ir embora.

O retorno até o carro foi bem árduo, com a mochila cargueira bem pesada, mas bem recompensador pelos dias que estivemos no Frey. O local é fantástico com escaladas maravilhosas, pode-se dizer que é uma escola completa com muito móvel, fendas, diedros, tetos e muita escalada tradicional. Esse lugar é tudo de bom e me trouxe momentos inesquecíveis. Aprendi muito com as pessoas que conheci e também as amizades que fiz por lá.

Agradeço ao Maykel, amigo e parceiro pelo convite de conhecer o Frey e desfrutar de toda sua beleza.

(Pedro Zeneti , também conhecido como "Jacaré" é dono do Abrigo de Montanha do Pantano, em MG, além de um dos principais conquistadores e incentivadores das escaladas no complexo do Elefante e Pantano, em Andradas -MG).