Há tempos pensava em conhecer melhor a Patagônia argentina. Já tínhamos ido uma vez, em 2005, a Ushuaia (em espanhol pronuncia-se "Usuaia"), na Terra do Fogo. Foi no inverno e fomos para esquiar. Existe lá uma estação de ski bastante recente e bem equipada, o Cerro Castor. O ski downhill (ou alpino) é um esporte caro e não muito ecologicamente correto (o ski cross-country ou "de fond" é menos agressivo com a natureza), mas a sensação é algo indescritível. Nestas férias resolvemos ir a El Calafate e El Chaltén visitar o Parque Nacional los Glaciares, lado argentino dos campos de gelo da patagônia sul (o lado chileno é o Parque Torres Del Paine).

El Calafate é onde se chega de avião e onde se pode visitar muitos glaciares (ou geleiras), que são os diversos braços dos extensos campos de gelo da patagônia sul. Cada braço da do campo de gelo é uma geleira com um nome com um nome diferente e geralmente a geleira termina em um lago. A geleira mais conhecida é a Perito Moreno (homenagem a um geólogo argentino que estudou a região e estabeleceu fronteiras com o Chile no século XIX). Esta geleira é a mais impressionante e mais visitada porque se pode chegar bem perto dela, numa ponta de terra no grande Lago Argentino.

Pode-se ver a geleira de passarelas ou em embarcações. Fizemos o tradicional passeio de barco em que se visitam várias geleiras, como a também famosa Upsala (em homenagem à Universidade sueca que a estudou), a Spegazzini e a Onelli. Lá fiz o chamado mini trekking sobre a geleira. Coloca-se os crampons e paz-se uma caminhada sobre o glaciar terminando com um whiskey tomado com gelo da geleira. Em El Chaltén o esquema é muito turístico e há que reconhecer que os argentinos são bastante eficientes nisso.

De El Calafate fomos de ônibus a El Chaltén. Há duas companhias de ônibus turístico que fazem o percurso. El Chaltén é a chamada a "capital nacional do trekking". Chegando a El Chaltén já se vêm turistas diferentes, geralmente mais jovens e com mochilas nas costas.

Há um camping no centro e outros no parque (geralmente ao lado das lagunas). O parque é o mesmo que o de El Calafate, mas em El Chaltén a cidade já fica dentro do parque e não é preciso pagar os 60 pesos para entrar (cerca de 45 reais). Na entrada da cidade (que tem cerca de 500 habitantes, mas cuja população sobe a alguns milhares no verão) há um centro de visitantes do parque que fornece um mapa de trilhas da região. As trilhas são fáceis e bem demarcadas.

Já na chegada a El Chaltén o ônibus parou para que pudéssemos admirar a vista do Fitz Roy e Poincenot que se destacam no recorte do horizonte. Da cidade se pode ver os dois cumes, isso quando as nuvens permitem, pois o Fitz Roy está constantemente encoberto por nuvens que vêm da cordilheira, dando a impressão de uma chaminé que solta fumaça do seu cume. Há várias trilhas muito populares em El Chaltén. Como tínhamos apenas dois dias inteiros para caminhar optamos por fazer a trilha (Sendero em espanhol) de los três no primeiro dia e a da laguna Torre no segundo. A trilha da laguna de los três é a mais puxada, com cerca de 25 km contando a ida e a volta e 750 metros de desnível. A trilha da laguna Torre tem cerca de 20 km ida-e-volta e um desnível de 250m. O vento é constante e por vezes bastante forte, chegando a ameçar derrubar quem caminha. Nesta época do ano (verão) o clima é bastante instável e a temperatura varia entre cerca de 7oC à noite e 18oC no meio do dia. Com estas temperaturas a caminhada fica bem agradável. Usamos um anorak, mas freqüentemente o tirávamos, principalmente nas subidas. Não é necessário muito equipamento, apenas roupas confortáveis, boas botas e meias de caminhada (é bom usar um "liner" sob as meias), um anorak e protetor solar.

El Chaltén e El Calafate têm muitas lojas de material de trekking e de montanha, mas os preços não são bons como em Ushuaia, esta última porto livre. Entretanto há muita variedade e os produtos da marca Argentina Montagne têm preços razoáveis.

A comida é relativamente barata e a carne é o ponto forte, boa e barata. O prato mais barato é o bife à milanesa com papas fritas. Sai por cerca de 20 pesos (15 reais). Com um litro de Quilmes após a caminhada vai bem... Para os vegetarianos há milanesa de soja e pizzas, mas estas últimas não são grande coisa. O cordeiro patagônico foi uma decepção: caro e muitíssimo gorduroso e com pouca carne. Os vinhos tintos são bons e baratos, é claro.

O que ficou mais marcado na memória foram os glaciares e seus tons de azul - que as fotos não retratam bem - e os cumes do Fitz Roy, Poincenot e Serro Torre. Muita vontade de tentar pegar uma expedição ao cume, mas faltaria tempo e dinheiro para isso nesta viagem, infelizmente. Fica para a próxima.

escrito por Beto e Renata - 2009

Confiram algumas fotos do trekking :