Relato da Viagem a Arenales - Argentina, fevereiro de 2009

por Luiz Felipe Moura

Uma vez, quando eu conversei com o Braga sobre escalada em Rocha em Arenales na Argentina, fiquei impressionado pelas possibilidades que o lugar apresenta.

Ele havia passado cerca de um mês por lá e tinha escalada muito. Aquela conversa despertou a minha curiosidade e eu fui pesquisar na internet sobre o local. Encontrei vários sites, com relatos e fotos que me deixaram mais impressionado ainda. Aos poucos foi se formando um desejo (ou seria um sonho?) quase irresistível de conhecer Arenales.

No final do ano passado (final de 2008) eu estava decidido a aproveitar as férias de janeiro para finalmente ir para lá. Mandei um email para alguns companheiros de escalada, fazendo o convite. Vários se mostraram interessados, mas nenhum deles chegou a confirmar. O tempo foi se passando e eu já estava desistindo por causa da falta de um 'comparsa' para dividir a corda.

Quando eu já estava planejando passar uma temporada em Andradas (MG), recebi um email do Victor Messias perguntando se os planos para Arenales ainda estavam de pé, pois ele tinha conseguido umas férias inesperadas.

Foi o tempo de pesquisar preços de passagem para a Argentina, separar o equipamento e arrumar a mochila.

No dia 7/2 embarcamos em um vôo de São Paulo a Buenos Aires, via Montevideo (pela Pluna). No final da tarde pegamos um ônibus para Mendoza, chegando lá na manhã seguinte. Em mendoza acertamos o transporte para Arenales (através de uma agência de esportes de aventura), fizemos as compras de comida, compramos o guia 'Escaladas em Mendoza' e passamos a noite no Albegue da Juventude "Campo Base".

Na manhã seguinte o Miguel passou cedo no albergue para nos pegar e levar até Arenales. Foram 3 horas de viagem para percorrer 135 km, sendo 18 km de estrada de terra. Chegando lá nos registramos na Gendarmeria (Refúgio Portinari) e montamos nossas barracas numa área de camping bem próxima ao refúgio, ao lado de um pequeno córrego.

Esta é a parte 'baixa' de Arenales, onde estão os Grupos da Mitria e do Refúgio. Ficamos escalando nestes setores durante cinco dias, sendo que escalamos quatro e descansamos um (fomos fazer uma caminhada até a cachoeira Chorros de las Viejas).

Durante estes dias fizemos as vias (o grau indicado é o francês) El condor pasa (100m, 5), Elida (24m, 5), Intercooler (125m, 5+), Rosso di sera (90m, 6a), Amici miei (85m, 6a), Patricia (200m, 6a), Central portinari (200m, 6a+), Dança com lobos (85m, 6a) e Filo del caballito (160m, 5).

Algumas dessas vias são equipadas, outras tem proteções móveis. O Victor guiava as enfiadas mais difíceis e eu as mais fáceis. Aos poucos fomos nos acostumando com a rocha, com a escalada em fendas, com as proteções móveis (boas e abundantes) e fomos ganhando confiança.

Conseguimos terminar todas as vias que entramos. O tempo nos ajudou e nesses cinco dias choveu apena um dia a noite. Foi justamente por causa desta chuva noturna que resolvemos antecipar a mudança do nosso acampamento para a parte 'superior' de Arenales, onde está o Refúgio do Cajon de los Arenales, uma caminhada de cerca de 45 minutos.

Tivemos que fazer duas viagens, levando primeiro o equipamento de escalada e depois o material de acampamento, roupas e comida. Neste setor ficamos oito dias, sendo dois dias de descanso. O visual neste lugar é impressionante, para todos os lados que se olha só tem rocha, com os cumes em forma de agulhas.

Os cumes destas agulhas estão na faixa de 3200 a 3400 m de altitude. No primero dia fomos para a agulha Campanille Alta, onde fizemos a via Armonica (220m, 6a). A aproximação é bastante cansativa e leva cerca de 2 horas. Para poupar esforço no dia seguinte, deixamos as mochilas na base da agulha. No dia seguinte voltamos lá, pegamos as mochilas e fomos para a agulha Charles Webis, onde fizemos a via Fuga das cabras (6b).

Depois de um dia de descanso (merecido), fomos para a agulha El Cohete para fazer uma das vias mais longas de Arenales: Mejor no hablar de ciertas cosas (500m, 6b). São 14 enfiadas e 12 rapéis. Levamos cerca de 12 horas, sendo que as 4 primeiras enfiadas foram feitas em simultâneo. Foi uma maratona, mas valeu a pena!

Na sequencia fomos para a agulha Nuez onde fizemos a via Mujeres y tequila (180m, 5+). Mais um dia de descanso. Depois fomos para a agulha Carlos Daniel, onde fizemos a via Carlos Daniel (290m, 6a). Nesse dia tomamos a nossa primeira chuva, felizmente já na trilha de volta para a barraca. Tivemos um aproveitamento de 100%, ou seja, escalamos todos os dias (fora os dias de descanso) e terminamos todas as vias que entramos.

No nosso último dia resolvemos 'relaxar' e escalar algumas vias mais esportivas na Mitria. Fizemos a Suenos vaginales (23m, 6a+), Mama te quiero (80m, 6a) e Transpirando (23 m, 6a). O Victor ainda fez mais 2 vias 'fortes' que eu não me lembro o nome.

No dia 23/2 iniciamos a nossa volta. Desta vez descemos tudo numa só viagem, com as mochilas bem pesadas. Conforme haviamos combinado, o Miguel nos levou até Mendoza, onde tomamos um banho na rodoviária (só haviamos tomado um banho gelado no córrego), almoçamos no centro e fizemos algumas compras. A noite pegamos o ônibus para Buenos Aires e no dia seguinte embarcamos para São Paulo, novamente com uma (longa) escala em Montevideo.

O balanço geral foi altamente positivo: o lugar é fantástico, as vias são alucinantes, o tempo esteve ótimo. Não posso deixar de agradecer ao Victor Messias, meu companheiro de cordada, por ter participado dessa maravilhosa trip de escalada!


  • R$ 1,00 = 1,50 Pesos Argentinos
  • Passagem aérea SP - Buenos Aires ida e volta (com escala em Montevideo) = US$ 255,00
  • Em Mendoza (argentina), hospedagem no albergue 'Campo Base', site :  http://www.hostelcampobase.com.ar/
  • Telefone e demais dados do Miguel (transporte até Arenales) :  www.andes-vertical.com
infos atualizadas em fevereiro de 2009