Relato da 1a. Repetição da "Suicida a Vista"

Pessoal, 

Vou tentar fazer aqui um relato do que foi a primeira repetição da via Suicidas a vista, na pedreira do Jardim Garcia. Cabe esclarecer, para os iniciantes, que chamamos de repetição (primeira, segunda, etc) a escalada de uma via que acabou de ser conquistada, ou seja, é a repetição da via por algum escalador que não participou da conquista. 

Antes da Suicidas a vista ser conquistada, havia apenas uma via de escalada artificial (aquele em que se usa meios artificiais para progredir) na pedreira: a Silvertape. Essa via tinha sido conquistada pelos escaladores de Hortolândia: Davi, Rafael e Thiago. Ela tinha sido repetida poucas vezes e sempre com algum dos conquistadores participando das cordadas. Eu e o Evandro formamos a primeira cordada que repetiu a via sem a presença de um dos conquistadores. Foi uma escalada muito legal, onde fomos alternando quem guiava cada uma das três enfiadas. Acabei escrevendo um relato sobre essa 'aventura', mas o relato do Evandro foi muito mais emocionante. 

suicida_a_vista.jpg

Davi Marski, durante a conquista. Note a ultima proteção no bloco a direita, feita com um ballnutz #1. Atualmente mais ou menos na mesma altura, existe uma chapelete fixa (adicionada bem posteriormente a conquista).

Recentemente o mesmo grupo de escaladores de Hortolândia conquistou a Suicidas a vista, trabalho que eu e o Evandro acompanhamos de perto, já planejando fazer a primeira repetição. Só que depois de concluída, verificou-se que havia um trecho em artificial bastante exposto, com uma única proteção fixa, onde uma queda na seqüência de buracos de cliff poderia resultar num grave acidente. Durante um certo tempo rolou uma discussão se esse trecho deveria ou não ter ao menos mais uma chapeleta, para diminuir a gravidade de uma eventual queda. Depois de ponderar sobre o assunto, os conquistadores aceitaram a sugestão de colocar a chapeleta. Assim que o trabalho foi feito, eu e o Evandro combinamos de entrar na via. No primeiro fim de semana não foi possível por causa da chuva. Mas neste último fim de semana finalmente chegou a nossa vez. Combinamos para sábado as 14 hs. Como o Evandro se atrasou um pouco eu comecei a me equipar para entrar primeiro na via, contando com o Davi para me dar segurança. A idéia era eu guiar a primeira enfiada e deixar a segunda para o Evandro.

Quando estava praticamente entrando na via (por volta de 15 hs) chega o Evandro. Combinamos então que eu faria a via inteira, desceria e depois ele faria a via inteira também. 

Muito bem. Lá fui eu entrando na via, na primeira parte que pode ser escalada em livre. Para alcançar a primeira chapeleta, já bem alta, eu passei um perrengue, adrenei e já mandei o estribo num buraco de cliff.

Passado o lance no estribo, corda na costura, eu voltei e repeti o lance em livre: era fácil mesmo, eu é que estava adrenadão (rsrs). Toca para cima num trecho fácil de trepa-pedra e chega-se na base de uma linda fenda. Fui mandando em livre, protegendo em móvel com friends até a metade. Aí cheguei num lance de oposição e eu adrenei novamente. Não tive dúvida, mandei o estribo no friend, subi bastante e quando fui colocar outra peça, o friend onde eu estava apoiado soltou.

Foi uma bela "vaca", sem maiores conseqüências. Respira fundo, xinga bastante, agradeçe ao "anjo da guarda" por não ter acontecido nada e "põe para cima" novamente, como diria o Véio (rsrs).

Confesso que pensei em desistir e passar a ponta da corda p/ o Evandro, mas eu sabia que ele não iria me deixar descer (rsrs).

No final da fenda começa a seqüência em buracos de cliff, agora com duas chapeletas no caminho até chegar na parada. Ufa! Como é bom chegar nessa parada, pois a continuação é um A0/A1, ou seja, a progressão é de chapeleta em chapeleta, pois a rocha fica negativa.

Virando uma aresta aparece mais uma seqüência de 3 buracos de cliff até a segunda parada. Uhu! Agora é só rapelar e correr para o abraço. Fiquei realmente muito contente. Essa vai para o 'caderninho' :-)) 

Claro que eu demorei bastante e não deu tempo para o Evandro entrar na seqüência, pois logo iria escurecer.

Mas combinamos o retorno para domingo as 8 hs. Não deu outra: o Evandro fez a segunda repetição, levando apenas 1h30. O Andrigo entrou na seqüência e fez a terceira repetição.

Parabéns para todos nós! Deixo para ele fazer outro relato, com certeza bem mais emocionante do que este.

Uma coisa é certeza: escalada artificial é o bicho! Já começamos a sonhar com a Domingos Giobbi na pedra do Baú!

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Felipe