Por Claudio Brisighello
Bouldering é uma das modalidades de escalada que vem crescendo bastante no Brasil, apesar de ser uma "febre" recente na história deste esporte no país, se comparada aos estilos esportivo e tradicional, por exemplo. Este fato é evidenciado tanto em ginásios de escalada como em novos picos que estão se desenvolvendo rapidamente com o surgimento de cada vez mais praticantes, devido ao fácil acesso em termos de custo, sem falar do aspecto social, dessa "vibe" positiva que une galeras e tribos nas “boulder sessions”. Este artigo é destinado aos praticantes ou "boulderistas", com o intuito de alertar e instruir a respeito da segurança, pois por menor que um bloco de pedra seje em relação à uma parede ou falésia, ele pode gerar acidentes gravíssimos.
A fratura no osso Tálus é rara, porém comum entre escaladores, dado o forte impacto ao qual nossos pés/tornozelos estão sempre expostos. Este osso possui a pior irrigação sanguínea do corpo humano, ou seja, a mais lenta calcificação e com grandes chances de necrose (morte e apodrecimento do osso), o que pode demandar próteses e até amputamentos. A radioscopia ao lado é o resultado de uma queda de um highball (~6m), sobre um crashpad em terreno plano.
Pesquisei algumas poucas bibliografias com instruções para a segurança em bouldering, que vão desde o tradicional guia de escaladas de Fontainebleau (uma das mais antigas e famosas áreas de boulder do mundo) a livros específicos de bouldering. No entanto, a impressão é de que não existem revelações desconhecidas à comunidade boulderista, deixando a sensação de que a segurança e a prevenção de acidentes em boulder é muitas vezes uma simples questão de consciência ligada. Abaixo seguem alguns pontos em comum que achei mais importante ressaltar.
Primeiramente, é bastante comum vermos escaladores por aí afora, inclusive na mídia (fotos, vídeos), mandando boulders sozinhos, somente com um ou mais crashpads. Fato que, sob certo ponto de vista, é mais um atrativo desta modalidade (poder fazer um circuito ou treino sozinho). Eliminar o “seg de corpo” não é o objetivo deste artigo, é um julgamento que lida com o bom senso, responsabilidade e muita experiência.
O escalador ou “seg” responsável pela segurança de corpo, deve manter sempre ambos os braços erguidos para cima, e os pés bem firmes no solo, preparados para receber um “empurrão” a qualquer momento. O "seg" não necessariamente deve ficar logo abaixo do escalador, mas sim posicionado onde o "pouso" pode ocorrer em cada movimento. Por isso, é bom que tenha conhecimento prévio da rota sendo escalada, afim de prever se o escalador pode pendular para uma determinada direção. Prever a direção da queda protege também o próprio "seg", evitando que o escalador caia diretamente em cima do segurança. O "seg" deve manter as mãos abertas e próximas do escalador na medida do possível. Alguns chegam a tocar a camisa do escalador afim de transmitir confiança ao mesmo.
mãos acima do centro de gravidade, quase encostando
A parte do corpo a ser segurada durante a queda depende muito da escalada sendo realizada. Em problemas mais verticais, o centro de gravidade fica na "região glútea" portanto o "seg" deve almejar a cintura do escalador. Já em tetos ou "overhangs", o centro de gravidade sobe para a região da cintura. Como o "seg" deve visar sempre acima do centro de gravidade (caso contrário ele poderá desquilibrar e virar o escalador de cabeça para o chão), deverá segurar a queda pelos sovacos, por mais nojento que isso soe. Em caso do escalador ainda estar próximo ao chão, manter as mãos próximas das costas e da cabeça do escalador.
protegendo a cabeça, mesmo em lances próximos ao chão
Lembrando que é impossível uma pessoa sustentar toda a energia gerada pela queda de um corpo, por isso o "seg" nunca deverá tentar segurar ou carregar o escalador mas sim escorá-lo de maneira segura para que caia sobre o crashpad sem bater as costas e principalmente a cabeça, sempre que possível fazendo com que a "aterrisagem" aconteça de pé.
Aterrisando mais um corpo nos crashpads salvadores
A
regra número um: 110% de foco do "seg" sobre o escalador, mesmo que o
papo na "boulder session" esteja ótimo. Naturalmente, um "seg" de
confiança contribue para uma melhor ascensão do escalador, porém este
nunca deverá escalar cegamente, mas sim consciente do cenário:
disposição do solo (atenção a quaisquer deformações mesmo nos terrenos
mais planos), localização do bloco em si perante a outros obstáculos
como troncos de árvores e outras pedras, posição dos crashpads,
quantidade de "segs", etc. Sem falar do "saber cair", o escalador está
sempre lidando com o limiar onde você se lança naquele deadpoint
contorcido a vários metros do chão, de maneira que um erro não o faça
cair de ponta cabeça.

Se você nem sua galera não dispõem de tantos crashpads...

...então não deixe de deslocar o crashpad cuidadosamente conforme o escalador progride!
Em
último lugar, porém não menos importante, é a questão dos highballs,
onde a quantidade de "segs" e crashpads precisam aumentar, assim como o
comprometimento do escalador. Dependendo do terreno, é comum dispor 2
crashpads um em cima do outro de maneira reduntante, e sempre que
possível ter vários crashpads cobrindo todas as zonas prováveis de
aterrisagem.

Note a sobreposição de crashpads devido a altura, e a quantidade de “segs”, todos alertas.
De
qualquer maneira, a partir de uma determinada altura (5m na experiência
trágica do autor), a segurança de corpo perde a capacidade de proteger
e se torna perigosa até para o "seg". A partir deste ponto, não poderá
caber displicência dentro do comprometimento ao entrar em um highball:
nunca subestimar blocos altos por mais fáceis que sejam, ou mesmo que
você já o tenha escalado inúmeras vezes. Até as mais sólidas agarras e
pés podem quebrar, molhar, escorregar, etc. Este artigo não é ficção
nem teoria, é realidade e prática: filtrar ao máximo o orgulho e o
egoísmo das decisões cotidianas é uma recomendação que se aplica aqui.
Pois esse papo de que nunca vai acontecer comigo é conversa fiada.
Portanto,
se você é um boulderista desses apaixonados que desejam escalar até na
terceira idade, páre 2 minutos para refletir sobre estes detalhes que,
depois de centenas de boulders escalados, acabam entrando no piloto
automático e correm o risco de serem lembrados somente com uma surpresa
desagradável. Escrito por um sujeito que escalava obcecadamente por
mais de 6 anos e teve que interromper suas atividades abruptamente por
2 anos e meio devido a um grave acidente fazendo boulder.
Boas escaladas a todos, SEMPRE!!
(credito das fotos: Claudio Brisighello, Udo Neumann e Roberto Armando)
Matéria original em www.escaladabrasil.com



