artigo escrito pelo Rômulo Bertuzzi

Normalmente realizamos essa pergunta ao nosso companheiro de cordada quando ele cai em um determinado movimento da via. Caso a resposta seja positiva, provavelmente ele estará passando por um processo agudo de fadiga muscular. Como já sabemos a escalada esportiva está diretamente relacionada à superação dos próprios limites, não importa qual o maior grau que já escalamos, sempre tentaremos alguma via um pouco mais difícil pelo simples prazer de encadeá-la. Logo, estaremos constantemente convivendo com esse fenômeno biológico, digamos; inconveniente.

Normalmente quando isso ocorre é possível se observar alguns ajustes fisiológicos logo ao final da escalada. Geralmente as mudanças mais perceptíveis são: o aumento da pressão arterial e da freqüência cardíaca, o aumento da freqüência e do volume respiratório e a fadiga de alguns grupos musculares, em especial do braço e antebraço.

Os resultados de um estudo realizado em 1995 na Universidade de Paris, com escaladores esportivos de elite, indicaram que as mudanças citadas anteriormente ocorrem, principalmente, por causa da contração isométrica dos grupos musculares do braço e do antebraço. Chegou-se a essa conclusão pois se observou que durante as ascensões os indivíduos permaneciam cerca dois terços do tempo total realizando esse tipo de ação muscular. Ou seja, para realizar uma determinada via que são necessários 6 minutos, 4 destes serão em contração isométrica! Cabe aqui uma pequena observação: essas tais contrações isométrica é o que popularmente chamamos na escalada de “tensão corporal”.

Sendo assim, o presente texto teve a pretensão de expor de forma superficial e sem as devidas preocupações acadêmicas, uma das possíveis explicações para o processo de tijolamento. Bem... não sei exatamente como começar, pois existem inúmeros processos biológicos envolvidos na fadiga muscular, mas neste texto faremos uma abordagem do ponto de vista energético.

Para a realização das nossas tarefas diárias como estudar, escalar, caminhar, nadar...etc, o nosso organismo necessita de energia no momento e na quantidade certa. Essa energia que provém principalmente dos alimentos é armazenada e transportada pela molécula ATP (adenosina trifosfato).

Contudo, devido à quantidade de ATP encontrada no organismo é suficiente apenas para realização de um exercício máximo por alguns segundos. Para restaurar a molécula de ATP é necessária novamente a energia química oriunda dos alimentos.

O primeiro processo de restauração da ATP é através de uma molécula de Creatina Fosfato, que por sua vez também estará na célula funcionado como um reservatório de energia. Esse sistema energético, denominado de anaeróbio alático, provavelmente é o mais importante para os Boulderistas. Veja o esquema abaixo:

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Assim como a ATP, a cretina fosfato está em número reduzido no grupo muscular, necessitando de outros sistemas para a ressíntese desta importante molécula. Existem didaticamente duas fases para a degradação da glicose para atender a demanda energética. O primeiro estágio consiste na oxidação parcial da glicose sem a presença do oxigênio, denominado de via anaeróbia lática, que por sua vez, é considerada uma fonte rápida de fornecimento de energia. O segundo estágio consiste na degradação completa da molécula de carboidrato com a presença do oxigênio, denominado de via aeróbia

Toda vez que iniciamos uma escalada próxima ou acima do nosso limite, o fornecimento de energia ocorrerá inicialmente pela via anaeróbia, e dependendo do tempo de duração ela poderá passar para a via aeróbia (veja o quadro abaixo).


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Porém, quando a intensidade e o tempo de duração da escalada levam a uma grande solicitação do metabolismo anaeróbio, há o aumento da produção de lactato pelos grupos musculares exercitados, o qual está associado com a liberação de íons de hidrogênio. O aumento da concentração dos íons de hidrogênio é capaz de alterar o pH celular, dando inicio aquela sensação de tijolamento do antebraço.

A medida que continuamos a escalar próximo ao nosso limite, o aumento na produção de lactato continuará ocorrendo, e o organismo também diminuirá a capacidade da sua remoção. Logo, as moléculas de ATP não serão ressintetizadas na quantidade e tempo suficiente, que terá por conseqüência o inicio ao processo de fadiga, e finalmente ...........a queda!

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Resumindo

  • Para  a realização de todo trabalho biológico (andar, escalar, etc...) a energia será fornecida através da molécula de ATP;
  • A molécula de ATP é formada por 3 fosfatos, ao liberar 1 fornece energia necessária para as nossas atividades, entre elas, a escalada;
  • A sensação de tijolamento no antebraço ocorre principalmente pelo acúmulo dos íons de hidrogênio, devido grande solicitação isométrica (tensão corporal).
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